Música para leitura: http://www.youtube.com/watch?v=g1aCY0Vh_IA 


  O sonho no céu de baunilha...

Talvez fosse esse o cenário da minha ilusão. Um lugar onde não existe a angústia do tempo passando, ou mesmo a sensação de perda do tempo. Um céu onde tudo é minimizado em sua importância, aliás, nada é tão sério. É tudo bem leve. Do alto, com um vento forte e ao mesmo tempo não sentido, tudo sendo possível. Nada sendo submergido, não existe mistério. Uma melodia simples, uma fixação: As vontades sendo substituídas por uma melodia. A música, única testemunha do milagre, um êxtase indizível para chegar-se ao puro amor?

Nos sonhos em que  podemos voar, mesmo naqueles em que os olhos  continuam abertos, dentro do sonho, o medo de cair não existe. Você só quer descansar de tudo que é tão pesado. Correr pela auto estrada, sumir. Porque todos olham para você, mas no céu de baunilha você não se importa. Tanto tempo procurando por um resquício de quem você já foi um dia, e no céu de baunilha, lá você encontra seu antigo EU reclamando pela demora. Oh, é tão justo, como você não tinha pensado antes? Era tão óbvio. Era a sua dor, o seu desespero, e voar no céu de baunilha era tudo o que você precisava. Você deve estar se sentindo feliz agora, está olhando o céu mais bonito de todos, a visão de paraíso que sempre te fascinou e  mais desejou um dia poder ver.  No sonho, onde tudo rir para você, onde o tempo não passa. Onde nada pode mais te incomodar. Onde o seu sorriso é enfim, sincero. Onde você fecha os olhos e continua sentindo. A verdade é que essa é você, e você só queria morrer para que tudo o que te deprime desaparecesse. Respirar já estava cada vez mais insuportável. É preciso encarar os fatos, esse era o seu destino.Você sempre se inclinou, a cada passo ou tropeço, para olhar para o céu de baunilha. Ficava horas imaginando quando esse dia chegasse o que iria sentir, no entanto, quando o dia chegou você estava ali, parada, sem sentir o seu próprio corpo, não sabia sequer descrever o que estava sentindo. Contemplava em silêncio, a ausência da compreensão do que se passava te deixou, pela primeira vez, infinitamente humilde, e encarava  esse vazio de respostas com alegria e sem frenesi.  Afinal, você estava morrendo, e só naquele instante compreendeu, que viveu todos os dia da sua vida para chegar aquele instante. Desde o primeiro passo, todas decisões, todo o rumo da sua vida era para chegar àquele momento.

Fechou os olhos, algo lhe dizia que qualquer pedido seu seria atendido, só podia querer alguém naquela cena que se desenrolava perto do seu fim. Eis que, no mundo dos sonhos, seu pedido foi realizado... Ali estava ele, imóvel, parecia triste, mais a expressão no seu rosto não era de tristeza, tinha um ar de amabilidade naqueles olhos que a encantavam e deixava o seu céu ainda mais sublime...

Lembrou de coisas agradáveis, como o vento no seu rosto em cima de uma árvore. Imagens de sua infância introvertida, de quando banhava em riachos e tinha medo de ir na parte funda. Da adolescência e a timidez. Do primeiro amor, da primeira dor, dos risos, dos choros, dos abraços, dos beijos sem amor e, principalmente, os dado com tanto amor que doía o coração só em relembrar. Sentiu uma melancolia ao lembrar do olhar doce da sua mãe e dos seus irmãos e sobrinhos. Estava quase inerte. Olhou pela ultima vez para aquela face que quis ver como coisa última dos olhos em vida, abriu os braços, como quem queria voar, e pulou na imensidão daquele céu de baunilha.


 

 

 

 

 

 

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