Carta de despedida

Desculpa por nem bater na sua porta e já ir entrando sem permissão. Se eu soubesse que estragaria a sua vida, eu nunca teria atravessado a rua pra conhecer um pouco mais sobre você. Eu não teria me perdido no seu sorriso, que pra mim era igual a uma dose de rum e eu sei bem como eu costumo ficar tonta quando a dose é forte demais pra mim. Eu nunca fui de gostos amargos, mas os destilados puros sempre me fizeram sentir da forma adequada diante de você: com a garganta em chamas. Mas acabou que você virou o meu segredo mais sórdido e desculpa por isso também. Desculpa por ter achado que você ficaria por mim quando nem eu mesma teria ficado.
Desculpa se eu fiz você ter uma dependência absurda de meu sorriso escancarado e da minha atenção detalhada sobre tudo de você. Desculpa se sempre te pedi pra ficar mais um pouco, na hora em que você dizia que estava tarde e precisava acordar cedo. É que você parecia ser o único que entendia os meus medos de escuro. Desculpa pelas batidas de porta na sua cara e por todas aquelas vezes em que tínhamos que voltar, porque eu sempre esquecia alguma coisa em cima da mesa. Não achei que os meus modos fossem incomodar. Ah, e obrigada pelo quadro em P&B. É o meu tipo preferido, o meu objeto preferido e o meu dia preferido no mundo. Me faltou delicadeza em recebê-lo porque eu sempre fui blasé  demais nessas ocasiões. Mas eu o guardo dentro do armário.
Desculpa por ter feito você perder alguns programas de sábado com os amigos pra cuidar de mim. Desculpa se eu avancei demais na área. É que você me deu corda e nem percebeu que eu tinha medo de altura e nenhum equilíbrio pra andar nela. Eu sei que caí algumas vezes, mas achei que entenderia o meu lado se ouvisse de mim que não era amor. Até era. Ou foi por um tempo. E quando não era mais, eu já não queria só o resto. Eu sei que eu deveria ter falado isso e que podia ter sido mais justa. Desculpa por deixar a luz apagada e a casa vazia bem na hora em que pedi pra você ficar por mim. Bem na hora em que você entregou o seu coração, sem medo, sem reserva, inteiro.
Desculpa por ter sido omissa comigo mesma. E eu só te peço desculpas porque eu sei que, depois de mim, o maior prejudicado foi você. Você me reproduzia em megafone e fazia com que o meu corpo se reverberasse por aí. Desculpa por ter sido idiota e por achar que, na vida, a gente consegue mudar alguém pra transformar um esboço numa versão mais bem planejada de alguém que a gente quer amar. Desculpa por não ter amado você de verdade – e foi só porque eu pensei que amaria os seus jeitos descomplicados quando eu conseguisse moldá-los aos meus. Desculpa por ir embora em silêncio, mas é que eu me envergonho muito por ter feito a gente perder tanto tempo um com o outro. Desculpa por pedir desculpas o tempo todo. Mas esse é mais um dos meus modos de tentar amenizar o prejuízo e os danos que eu causo por aí. Ah, e me desculpa por ser assim e por espalhar a desordem até numa carta.
Desculpa!


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