Desde criança, enquanto chovia, eu desafiava a natureza e teimava olhando para o céu. Era um luta silenciosa: meus olhos e os pingos da chuva. Como se o céu, encabulado pela ousadia, resolvesse comprar a briga e não deixar-se espiar. Eu olhava, mesmo perdendo algumas batalhas, porque eu queria saber onde era o começo, onde se formava aquela verdadeira cachoeira que vinha das nuvens. Nunca consegui descobrir, mesmo desconfiando que o segredo poderia ser explicado pelo arco-íris que sempre se formava bem perto do quintal da minha avó. Ainda sinto a sensação de que se tivesse caminhado até o outro lado do arco-íris eu descobriria, quem sabe, o lugar secreto da chuva. O lugar em que ele se prepara, onde, como num folego sem fim, se enche de água e se lança depois para à terra. Esses pensamentos povoavam a minha imaginação na minha infância, e os tinha como um tipo de rebeldia ingenua, doce, sem propósito, que ocupava as minhas tardes. Descalça, em contato com a terra toda encharcada, os dedos gelados do frio. Todas as sensações brotando junto com os arrepios que sentia do corpo em gelo.
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