Música para leitura: http://www.youtube.com/watch?v=3PE50PZG5aw



Talvez seja o passo mais largo que já tenha dado: isso explica as borboletas no estomago, a vertigem inesperada, a respiração ofegante. Quando resolvi mergulhar - num pulo sem hesitação-, dentro de mim, dos meus medos, dos meus pecados, da minha inconsciência, da minha carne podre, forjada na ilusão daquilo que não sou, nunca fui e nem desejo ser. Comecei a amar cada célula podre de mim. Começo a respeitar todos os sentimentos ruins que carrego dentro do meu coração, colocando-os, um a um, ordenadamente, ao lado de suas antíteses. Fechar-se em si é viagem demasiadamente perigosa, sobretudo pelo perigo de perder-se à margem das sinuosas estradas de si. Somos infinitamente nebulosos, obscuros. E, o pior, por medo de quem somos, escondemos o que somos das pessoas que amamos. Por medo delas nos reprimirem. Preferimos dá somente o que há de bom em nós, e negamos a elas o direito de conhecer o nosso todo. Seremos sempre metade, rascunhos. 

Por isso, nossa vida pode ser resumida na tentativa frustada de renegarmos a nossa essência àqueles que estarão próximos de nós durante toda nossa vida. Até nas nossas orações, fazemos preces ao nosso Deus para sermos pessoas diferentes. É como se fossemos uma estrutura de vidro que quando quebra, ao invés de colarmos cada caco de vidro, pedimos, de todo coração, para sermos transformados em peças novas, mais bonitas, com mais resistência, não mas de vidro,  outro material , outra espécie. Porque renegamos o que somos, abominamos a nossa carne, nossos erros, nossa estupides, pequenez. Quando criança, mesmo na pureza da nossa inocência, quando perguntavam a nós o que queríamos ser ,SE PUDÉSSEMOS, sempre respondíamos pássaros, borboletas, alguém famoso, algum animal peludo, mas nunca, nunca respondíamos que queríamos ser  nós mesmos. Não exaltamos o nosso egoísmo, a nossa fraqueza, a nossa inveja. Somos levados a acreditar que devemos extirpar de nós o que há de mais podre. Mesmo sendo esses sentimentos, o modo como os gerenciamos, já que todos os temos- inevitavelmente somos reféns-, o que verdadeiramente molda o que somos.

 Quando sabemos dosá-los, medi-los, nega-los até certo ponto, conviver em equilíbrio com a nossa própria escuridão, é quando de fato conhecemos de que matéria somos feitos. Sabendo do que somos feitos e buscando uma aceitação total, começamos enfim a superarmos tudo aquilo que nos distancia do outro. Compreenderemos, finalmente, que temos todos, em suas dimensões próprias, uma fraqueza infinita, um vazio imenso, todos os sentimentos que tentamos mascararmos com falsas palavras, falsas pistas, rescunhos malfeitos. Porque a origem de todo o mal está em dentro nós, e é dentro de nós, através de uma reflexão profunda é que começamos a enfrentar o verdadeiro mistério do outro. É perigoso, é preciso equivaler-se em Deus na travessia mais difícil que você caminhará. Afinal, é preciso percorrer um longo caminho dentro de si para poder engatinhar no mundo. É preciso amarmos a nós mesmos.


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