Você escreveu poemas, sentou debaixo da árvore nos dias frios lendo os romances de Charles Dickens, Goethe, e tudo o que fosse ultra-romântico ou até mesmo ensaio sério sobre o amor. Viu os filmes dramáticos em que mocinhos choravam, choravam, e num impulso dramático, às vezes, abriam mão da sua própria "felicidade" só para ficar com a mocinha. O seu personagem predileto sempre foi o melhor amigo apaixonado, o cara que era amava platônicamente a garota que ele nunca trocou uma só palavra, ou pelo cara que conheceu alguém num dia fatídico e que já não conseguia parar de pensar na pessoa. Os seus mocinhos prediletos, sempre arrancavam lágrimas suas quando se sacrificavam pelo outro, em nome do amor. Quando, com os seus corações partidos, penalizados, sofriam silenciosamente. Mudavam de cidade só para esquecer alguém. Quando as declarações, quando raramente feitas, num impeto de 20 segundos de coragem, eram erupções silentes, acanhadas. Porque o motivo de você se identificar com eles é a idealização do outro. Você acredita que as sua vida tomará sentido quando encaixar na do outro, e acredita que o caminho até o outro não é simples e bonito, mas travessia tortuosa, pesada e com espinhos.
Na sua adolescência, sempre com conversas regradas sobre si, sua timidez sempre foi barreira. Rapaz, como diz Daniel Bovolento, "você é um mimado afetivo, daqueles que levam grandes pés na bunda por não ter reconhecido isso ainda". Sua percepção de amor já nasceu com a possibilidade de fracasso. Você é Sentimental demais, você pensa em amor de uma forma que venera a 2º geração do Romantismo.
Por você ser essa criatura que tudo crer, tudo aceita, pode-se explicar o porque dos outros não conseguirem criarem laços definitivos com você. Porque sentem que a sua negligência consigo é qualquer coisa de desleixo, qualquer coisa de frouxidão. Pense em todas as situações em que recebeu um não, às vezes delicado, outras vezes abruptos, mas sempre sinceros. Do outro lado está você, como os seus mocinhos, esperando por um desfecho divino, um sim surpreendente, um sinal do céu, uma mágica que, como em câmera lenta, enquadre o seu final feliz.. Esse filme consciente que se desenrola na sua cabeça é doente, fruto da soma da sua imaginação com uma pitada de expectativa sobre o outro, mas, principalmente, a falta de interesse em olhar de verdade o outro. Como concorda Daniel Bovolento: "É uma percepção que tem um quê de perspectiva derrotista (porque admite a sua passividade amorosa) e o resto de um grande complexo de inferioridade, consequências geradas pelas suas referências amorosas na adolescência e por esse “mimo” afetivo todo que você possui".
Ou talvez, pode ser que você leve Shakespeare muito a sério e acha a realidade diária do romance sem mágica alguma, e prefira passar os dias tediosos entretendo-se com a "coisa amada". Como branda Carlos Drummond de Andrade, "Amantes são meninos estragados, pelo mimo de amar e não percebem quando se pulverizam no enlaçar-se, e como o que era mundo volve a nada", os amantes são meninos mimados que, na busca da realização de suas próprias vontades em detrimento dos desejos do outro, acabam por entrar em conflito, só que um conflito individual. Nesse mesmo poema, " Destruição", ele inicia poetizando que "os amantes se amam cruelmente e com se amarem tanto não se veem".
Parece injusto que o amor se desenrole somente na extensão da nossa própria individualidade, vontade. Que tornamo-nos cegos. Posso endossar o tema, com um trecho sublime de Camus, que considero perturbador e que revira o estomago: "Não é necessário, portanto, definir a maneira como se ama entre nós. Os homens e as mulheres ou se devoram rapidamente, no que se convencionou chamar de ato de amor, ou se entregam a um longo hábito a dois. Por falta de tempo e de reflexão, somos obrigados a amar sem saber". É provocante dizer que "somos obrigados a amam", talvez nós, os mimados do amor, somos crias conscientes desse "hábito". O fato é que cria-se toda uma atmosfera, interna e externa, de álibis para nos isentarmos de olhar o outro de forma sublime.
No fim, quando nas noites de amor solitário, sofrido, "mimado", encontrarmo-nos descobrindo dentro de nós mesmos dores em lugares que nem sabíamos que existia, possamos ter os "20 segundos de coragem" para refletir sobre o que verdadeiramente buscamos no outro: nosso reflexo, uma extensão de nossa vaidade, ou, só por acaso, o outro?
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